A fome que habita em mim

A Campanha nos convida a revisitar a face perversa não só da fome em si, mas também, a fome de justiça, a sede, a violência, o desemprego, o trabalho escravo, a distribuição da terra, as desigualdades.

 

 

A Campanha da Fraternidade 2023 convida a todos a refletir e repensar a realidade.
O convite é trazer à mesa e na dimensão cotidiana, o tema da fome e da (falta) de fraternidade.

Nesse momento trago em minha memória alguns fragmentos de vida vivida e contada.

– “Mãe, estou com fome”.
– “Menina, você não sabe o que é fome, você está com vontade de comer”.

Eu cresci escutando isto junto com a minha fraternidade de mais seis irmãos e irmãs.
Sim, eu continuo sem saber o que é fome! Muitos sabem que a fome devora sonhos, esperança e declara a morte no futuro.

Lembro também da minha própria filha, lá pelos idos de meados da década de 1990, num gesto espontâneo e solidário, se levantou da mesa de um restaurante onde estávamos e entregou uma torradinha nas mãos de um bebê que dormia nos colos da mãe. A mãe tentava a sorte pela noite, pedindo ajuda de mesa em mesa.

Ela cresceu num país que tinha saído do mapa da fome, mas viu voltar.
Não sei o que é fome, mas a realidade indigna que nos tira o apetite, eu sei enxergar.
A falta de equidade na distribuição da riqueza e renda, concentrada nas mãos de poucos, é a fonte que jorra fome.

Lembro também do registro de uma adolescente, lá na Espanha, nos idos dos anos de 1860. Ela guardava a sua refeição para partilhar com quem não tinha. Seus dedos chegavam a dedilhar de tentação para experimentar aquela comida, rodeando e beliscando pedacinhos de uma omelete, mas ela preferia nutrir de solidariedade e contribuir no combate à fome, dando ela mesmo de comer…

As mãos de quem tem fome estão a espera de um gesto imediato e reparador. Este é um dos convites que a Campanha da Fraternidade nos faz. A fome tem muitos rostos, mas a fome também tem muitas faces.

 

A Campanha nos convida a revisitar a face perversa não só da fome em si, mas também, a fome de justiça, a sede, a violência, o desemprego, o trabalho escravo, a distribuição da terra, as desigualdades.

A Campanha da Fraternidade abre alas para a experiência permanente da solidariedade, da fé com obras, da compaixão que age.

Cada pouco importa, cada gesto solidário pessoal e coletivo importa, cada moradia social construída importa, cada emprego gerado, cada empreendimento solidário apoiado, toda política pública de enfrentamento da fome importa, um salário justo, a segurança alimentar importa, a justiça tributária, a valorização do pequeno produtor importa…

A Campanha da Fraternidade nos convida, enquanto comunidade de fé, no empenho para a construção de um mundo que tenha pão para quem tem fome e fome de justiça para quem tem pão.

 

Lembra daquela adolescente espanhola que apresentei para vocês, pois bem, ela não desistiu de sonhar. Embalada pela fome que lhe habitava, sonhou tanto, que entendeu que um dos caminhos para superar a fome -era à época, e sempre será- era garantir acesso a educação de qualidade para quem de fato passava fome e para quem tinha o que comer. E lá se vão 150 anos e esse sonho ganhou o mundo nas mãos das Filhas de Jesus.

A fome segue nos desafiando no Brasil e no mundo, embora todos os requisitos humanos, técnicos, tecnológicos, científicos e existenciais já estejam alcançados, nos mostrando a viabilidade e os caminhos de um mundo sem fome.

Que a Campanha da Fraternidade fortaleça os nossos sonhos de construção de um novo país que seja economicamente próspero, socialmente justo, politicamente democrático, ambientalmente sustentável, além de culturalmente diverso.

A fome que habita em mim, se solidariza com a fome que habita em você.

 

Por Maria José Brant (Deka)
Assistente Social, Mestra em Gestão Social, Missionária Madre Cândida

 

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