Uma breve reflexão acerca da experiência de uma professora e mãe na Rede Filhas de Jesus.
Em uma festa de aniversário, minha filha, na época com dois anos de idade, brincava com uma caixa repleta de acessórios e fantasias: havia espada, escudo, capa e coroa. Enfim, era uma caixa capaz de despertar inúmeras imaginações e histórias em uma mente fértil de criança. Então, ela pegou a coroa, colocou-a sobre a minha cabeça e disse: “igual à mãezinha do céu”.
Por mais banal que esse episódio possa parecer, ele tem um importante significado. Minha filha não pensou em princesas e rainhas da Disney, mas em Nossa Senhora. Hoje, com seis anos, ela seria capaz de descrever todas as dinastias monárquicas dos contos de fadas e das produções cinematográficas. Mas a Virgem Maria foi a sua primeira rainha.
No ano seguinte, ela e seus colegas de sala ofereceram omeletes aos funcionários da escola, relembrando a história de Santa Cândida na infância, quando ainda era chamada de Joanita. Esse ato simbólico os levou a refletir sobre a fome e a importância da partilha.
Desde os três anos, ela afirma ser a protetora da natureza; revolta-se toda vez que vê lixo jogado na rua ou uma árvore sendo cortada. Chamou a atenção do pai quando o viu escovando os dentes com a torneira aberta. Além disso, adora cuidar das plantinhas que tem.
Todos os anos, na Páscoa, ela e seus colegas dividem o pão, bebem suco de uva e relembram a Última Ceia, ressaltando, mais uma vez, a importância da partilha.
Assim como muitos colegas da Rede, comecei a trabalhar no colégio ainda jovem: não havia completado trinta anos e ainda não tinha minha filha. Desde que iniciei minha jornada no Imaculada de Campinas, fui apresentada à história de Santa Cândida e aos valores da instituição. A acolhida não era apenas verbalizada, mas percebida na prática — algo que pude constatar desde o primeiro dia de trabalho. A firmeza com afeto era, e continua sendo, algo que procuro dosar e aplicar na minha relação com os alunos. Além disso, os projetos norteadores são sempre pautados nos valores cristãos, presentes nas Campanhas da Fraternidade. No entanto, eu percebia a ação do educador sem ter um entendimento pleno de como ela se refletia, na prática, no aluno. Foi quando me tornei mãe e minha filha passou a estudar no Imaculada que tive a real compreensão da educação cristã da Rede Filhas de Jesus — como se agora eu pudesse perceber o ciclo completo: a saída e a chegada, o início e o fim.
Nesse sentido, percebo que a educação da Rede Filha de Jesus é integral, integradora e resistente.
Integral, pois se preocupa com a formação completa do ser humano: nossos alunos são preparados academicamente, mas também emocional e eticamente. Portanto, a nossa preocupação vai além da aprovação no vestibular, estendendo-se à formação do ser humano em todas as esferas, para que possa enfrentar os diferentes desafios da vida.
Integradora porque, enquanto instituição católica, não é alheia aos acontecimentos do mundo, nem se isenta de posicionamento; ao contrário, integra-se a eles. Santa Cândida, em sua vida, foi norteada por Jesus, que sempre foi sua inspiração. Ambos deixaram clara a preferência pelos mais necessitados. Santa Cândida, ainda criança, desprendeu-se de seu prato favorito para dá-lo a quem sentia fome; na juventude, fazia sopa para distribuir a quem passava necessidade e, quando foi repreendida, disse: “onde não houver lugar para meus pobres, não há lugar para mim”. Ao criar a congregação, percebeu que ela e suas seguidoras teriam que lidar com outras fomes: a de conhecimento e a do Evangelho. Nesse sentido, a educação católica, por sua excelência, posiciona-se contra as injustiças, as discriminações, as intolerâncias, as fomes e as guerras, e se mostra favorável à vida, à justiça, ao respeito, ao amor, à solidariedade e à paz.
Resistente, pois mantém firme sua missão, atuando como resistência à ações e valores visíveis na contemporaneidade. Visto que, diante de uma realidade que valoriza a aceleração, o rendimento e a alta performance, nossas escolas nos convidam a pausar, respirar, rezar, ler e refletir. Em um mundo que prioriza o ter, lembramos que o mais importante é o ser. Diante da competição e da meritocracia, valorizamos a fraternidade e a partilha. Perante a depredação e a busca pelo lucro, lembramo-nos da importância do cuidado da casa comum, o cuidado com o meio ambiente e com as pessoas que nele vivem.
Nesse sentido, estar na Rede Filhas de Jesus transcende a simples presença, mas envolve o ser, a constituição ética, religiosa e civil de todos os educadores, alunos e familiares que dela participam.

Por Nádia Ferreira Anorozo
Professora de História do Ensino Fundamental Anos Finais e do Ensino Médio no Colégio Imaculada Campinas. Graduada pela UNESP.



